Pular para o conteúdo principal

Artigo: Nada deu certo

Um dos assuntos mais comentados nas redes sociais ao longo desta semana foi a “brincadeira” feita por alunos da Instituição Evangélica de Novo Hamburgo. Caso semelhante aconteceu em 2015, no tradicional Colégio Marista Champagnat, de Porto Alegre. Tratava-se de uma ação organizada pelos alunos do terceiro ano (vestibulandos, portanto), intitulada “se nada der certo”, em que os alunos vestiam-se com fantasias e uniformes de profissões que consideram fracassos: faxineiras, garis, garçons, atendentes do McDonald’s, vendedores e afins.
As críticas viralizaram nas redes sociais. A própria instituição, tentando minimizar o ocorrido, explicou que o objetivo da ação era de “trabalhar o cenário de não aprovação no vestibular”. O caso é preocupante e, talvez, evidencie que nada deu certo mesmo. A escola, enquanto espaço educacional é, em princípio, fundamental na formação de nossas subjetividades. Não somente a difusão do conhecimento técnico-científico, mas também processos de socialização, de (re)conhecimento do Outro devem ocorrer na escola. A percepção que temos sobre o mundo, sobre nós e sobre os demais decorre em boa medida desses processos que nos constituem ao logo da nossa vivência.
Numa sociedade como a nossa, com um passado escravocrata-senhorial mal superado e marcada por desigualdades estruturais abissais, a figura do Outro é muitas vezes construída a partir de um discurso de inferiorização, de exclusão. Os espaços de interação social com o Outro diferente, espaços públicos por excelência, cada vez mais são evitados. O grupo social ao qual pertencem esses alunos muitas vezes vive em espaços privados de pluralidade: condomínio, clube, shopping center etc., em que o diferente não é aceito ou bem-vindo. Um verdadeiro apartheid social brasileiro, uma sociedade de muros e segregação, que pode ser representada sinteticamente numa figura: a do elevador de serviço.
Cada vez mais os critérios sociais identificatórios de pertencimento ao grupo que “deu certo” são definidos por marcas, status e símbolos de consumo. O esvaziamento do sujeito, reduzido ao seu poder de consumir. Essa homogeneização cultural pelo consumismo marca as sociedades contemporâneas. Escamoteados por um falso discurso de meritocracia, os privilégios deste grupo de alunos são confundidos por eles com sucesso, reproduzindo uma estrutura de hierarquia socioeconômica, e reforçados por visões de mundo discriminatórias e excludentes. O Outro, porque diferente (economicamente, socialmente, educacionalmente etc.), é visto como inferior, como aquele que “não deu certo”, destinado a servir, uma subcategoria de humanos que “não deu certo”.
Esse tipo de mentalidade, violenta e excludente, para não dizer tacanha, deve ser problematizada e desconstruída na escola e em sociedade. A estrutura econômica, bem como o acesso privilegiado ao conhecimento técnico-científico de ponta, propiciará a estes alunos ocuparem cargos de prestígio, de poder – de status social. Isso não pode ser confundido com “dar certo”. A alteridade, o respeito e o (re)conhecimento do Outro como um ser humano devem ser tidos como a base do processo de formação educacional. Formação não para o consumo ou exclusão do Outro, mas sim para a convivência em sociedade. Se assim entendermos, os casos recentes do Rio Grande do Sul mostram que “nada deu certo”.
Por Flávio Bortolozzi Junior, mestre e doutorando em Direito, professor de Sociologia Jurídica e Criminologia do curso de Direito da Universidade Positivo



Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

STF delimita cobrança do ITCMD em operações do exterior

  Decisões recentes afastam tributação de doações e heranças internacionais em Estados que ainda não adaptaram suas legislações após a Emenda Constitucional nº 132/2023 O Supremo Tribunal Federal (STF) consolidou, nos últimos meses, decisões relevantes sobre a cobrança do Imposto sobre Transmissão Causa Mortis e Doação (ITCMD) em operações provenientes do exterior, como doações feitas por doadores domiciliados fora do país e heranças envolvendo patrimônio ou inventário processado fora do Brasil. A Corte tem reiterado que, enquanto os Estados não atualizarem suas legislações de acordo com a Emenda Constitucional nº 132/2023, publicada em 20 de dezembro de 2023, não é possível realizar a cobrança do tributo nessas hipóteses. Na prática, isso significa que beneficiários brasileiros de doações ou heranças do exterior podem estar isentos de pagar ITCMD, a depender do Estado em que residem e da natureza do patrimônio transferido. Segundo a advogada tributarista do Mazutti Ribas Stern Soc...

Editora Suardi projeta expansão global e realiza o Fórum Internacional do Livro - 10/10/25

Com presença em três continentes e mais de 200 escritores publicados, a editora fundada pela empresária Giselle Suardi promove encontro internacional com apoio da Prefeitura de Curitiba Foi em Curitiba que a empresária Giselle Suardi transformou a paixão pela comunicação escrita em um projeto que rapidamente cruzaria fronteiras. O que começou como um sonho pessoal tornou-se, em poucos anos, a Editora Suardi — hoje presente no Brasil, nos Estados Unidos e, mais recentemente, na Europa. Com unidades em Curitiba (PR) e Orlando (Flórida), a editora já conta com mais de 200 escritores atendidos e mais de 100 livros publicados, firmando-se como uma das principais referências brasileiras na construção de autoridade, reputação e carreira internacional por meio da literatura. Guia Curitiba Instalada em Orlando desde o início de 2025, a Suardi conquistou um marco histórico ao ser a primeira editora brasileira a lançar livros em uma biblioteca pública da cidade. Em setembro, a empresa deu mais um...

Setembro Roxo alerta para os perigos do câncer de pâncreas e reforça foco na prevenção

  O Setembro Roxo, campanha de conscientização sobre o câncer de pâncreas, chama atenção para a gravidade da doença, considerada uma das mais letais do mundo. No Brasil, em 2023, a estimativa foi de 5.690 novos casos entre mulheres e 6.450 entre homens, segundo o INCA. Apesar de representar pouco mais de 2% dos diagnósticos oncológicos, esse tipo de tumor é responsável por até 5% das mortes por câncer. O principal desafio é a falta de sintomas específicos nos estágios iniciais. O pâncreas fica em uma região profunda do abdômen, o que dificulta a detecção precoce. “O câncer de pâncreas é conhecido como um verdadeiro ‘assassino silencioso”, pois a porcentagem de pacientes que recebem o diagnóstico quando o tumor já não é passível de cirurgia curativa, é alta. Esse é um dos motivos pelos quais a taxa de sobrevida em cinco anos ainda é tão baixa”, afirma o oncologista clínico do Centro de Oncologia do Paraná (COP), Dr. Rafael Vanin. Não existem exames de rastreamento de rotina para a d...