
O Brasil estima 78.610 novos casos de câncer de mama por ano entre 2026 e 2028, segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca). O tumor representa aproximadamente 30% dos diagnósticos de câncer entre as brasileiras, desconsiderando os casos de pele não melanoma. Somente no Paraná, são estimados 4.300 novos casos em 2026, sendo 820 em Curitiba.
Embora cerca de quatro em cada cinco casos ocorram depois dos 50 anos, o avanço da doença entre mulheres mais jovens têm despertado a atenção de pesquisadores e especialistas. Um estudo nacional publicado em 2025 na revista científica BMC Cancer, conduzido por pesquisadores do Inca, identificou crescimento médio anual de 1,6% na incidência e de 1,8% na mortalidade por câncer de mama entre brasileiras com menos de 40 anos. O aumento da mortalidade foi o mais acentuado entre os grupos etários avaliados.
O levantamento também mostrou que 64% das pacientes com menos de 40 anos chegaram ao atendimento com a doença em estágio IIB ou mais avançado. Nessa faixa etária, 68,4% receberam quimioterapia e 60,8% precisaram de duas ou mais modalidades de tratamento, números que evidenciam a complexidade do câncer de mama entre mulheres jovens.
“O câncer de mama é menos frequente em mulheres jovens, mas isso não significa que uma alteração nessa faixa etária possa ser ignorada. Um nódulo persistente, uma mudança na pele ou no formato da mama e uma secreção espontânea pelo mamilo precisam ser investigados, independentemente da idade da paciente”, afirma a oncologista do Centro de Oncologia do Paraná (COP), Maria Cristina Figueroa.
Por que os casos em mulheres jovens preocupam?
Além de não fazerem parte, em sua maioria, da população incluída no rastreamento mamográfico de rotina, as mulheres jovens podem apresentar mamas mais densas, característica que pode dificultar a visualização de determinadas lesões na mamografia e exigir exames complementares, conforme a avaliação médica.
Outro aspecto é que alguns tumores diagnosticados antes dos 40 anos apresentam características biológicas mais agressivas, como maior frequência dos subtipos triplo-negativo e HER2 positivo. A ocorrência de diagnósticos em estágios mais avançados também pode exigir tratamentos mais intensivos, com cirurgia, quimioterapia, radioterapia, terapia-alvo ou hormonioterapia, dependendo das características de cada caso.
“A complexidade vai além do tratamento do tumor. Estamos falando de mulheres que podem desejar engravidar, estar amamentando, iniciando uma carreira ou criando filhos pequenos. Dependendo do caso, é necessário discutir a preservação da fertilidade antes do início do tratamento, além de oferecer suporte emocional e acompanhamento multidisciplinar. O diagnóstico repercute em toda a organização da vida dessa mulher”, explica a médica.
O que pode estar por trás desse cenário?
O câncer de mama é uma doença multifatorial. Isso significa que não existe uma única explicação para o seu aparecimento ou para o crescimento observado entre as mulheres jovens.
Entre os fatores reconhecidamente associados ao risco estão o histórico familiar, alterações genéticas hereditárias, especialmente nos genes BRCA1 e BRCA2, exposição à radiação ionizante, consumo de bebidas alcoólicas, inatividade física, excesso de peso, aspectos hormonais e determinadas características da vida reprodutiva.
Mudanças sociais e reprodutivas, como ter filhos após os 30 anos de idade ou não ter filhos, também são estudadas por sua possível relação com o risco da doença. No entanto, esses elementos não explicam isoladamente o crescimento dos casos, e ainda são necessárias mais pesquisas para compreender o fenômeno entre mulheres jovens.
Ter familiares com câncer de mama ou de ovário, especialmente quando o diagnóstico ocorreu precocemente, ter casos de câncer de mama masculino na família ou vários parentes acometidos pode indicar predisposição hereditária e justificar avaliação individualizada e aconselhamento genético. Entretanto, a maior parte dos casos de câncer de mama não é explicada exclusivamente pela hereditariedade.
“É importante evitar uma interpretação simplista. Não podemos afirmar que um hábito ou uma mudança na vida reprodutiva esteja causando, isoladamente, câncer de mama em mulheres jovens. O que existe é uma combinação de fatores genéticos, hormonais, reprodutivos, ambientais e comportamentais. Ainda há muito a ser estudado sobre o aumento da incidência da doença nessa população”, esclarece a oncologista Maria Cristina.
Diagnóstico precoce começa com atenção aos sinais
Entre os sinais que devem levar à procura de atendimento médico estão:
- nódulo ou caroço na mama, geralmente endurecido e persistente;
- alteração no formato ou no tamanho da mama;
- retração do mamilo;
- saída espontânea de líquido pelo mamilo, especialmente com sangue;
- vermelhidão, espessamento ou aspecto de “casca de laranja” na pele;
- ferida na mama que não cicatriza;
- nódulos nas axilas ou na região do pescoço.
A presença de uma alteração não significa necessariamente câncer, mas exige investigação. Em mulheres jovens, é especialmente importante não atribuir automaticamente um nódulo à idade, ao ciclo menstrual, à gravidez ou à amamentação sem avaliação profissional.
“O principal recado é não esperar. Quanto mais cedo o câncer de mama é identificado, maiores são as possibilidades de tratamento e menores podem ser os impactos físicos e emocionais. A mulher deve conhecer o próprio corpo e procurar assistência quando perceber algo diferente do seu padrão habitual”, reforça a oncologista.
O rastreamento de mulheres sem sintomas deve seguir as recomendações aplicáveis a cada faixa etária e ao risco individual. No SUS, a orientação atual é a realização de mamografia a cada dois anos para mulheres de 50 a 74 anos. Já pacientes com sinais suspeitos devem ser investigadas em qualquer idade. Mulheres com alto risco, como aquelas com forte histórico familiar ou mutações genéticas, podem necessitar de acompanhamento específico e início mais precoce dos exames.
É possível reduzir o risco
Nem todos os fatores relacionados ao câncer de mama podem ser modificados, mas algumas atitudes ajudam a diminuir o risco:
- praticar atividades físicas regularmente;
- manter o peso corporal adequado;
- evitar o consumo de bebidas alcoólicas;
- não fumar;
- manter uma alimentação equilibrada;
- amamentar, quando possível;
- não utilizar hormônios ou terapia de reposição hormonal sem acompanhamento médico;
- conhecer o histórico de câncer da família;
- manter consultas e exames em dia, conforme orientação profissional.
O Inca destaca o excesso de peso, a inatividade física, o consumo de álcool, tabagismo e o uso de terapia hormonal entre os fatores modificáveis associados à doença. A amamentação, por sua vez, exerce efeito protetor para a mulher.
“Prevenção não significa garantia de que o câncer não ocorrerá. Significa reduzir riscos e ampliar as oportunidades de descobrir a doença em uma fase inicial. O Outubro Rosa precisa alcançar mulheres de todas as idades com uma mensagem responsável: informação, atenção aos sinais e acesso rápido ao diagnóstico salvam vidas”, conclui a oncologista.
Principais atualizações recentes
- Cobertura nos planos de saúde: A partir de 1º de outubro de 2026, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) eliminou a restrição de faixa etária e gênero para a cobertura obrigatória da mamografia digital nos planos de saúde, desde que haja indicação médica.
Debate sobre a mamografia aos 40 anos
O Ministério da Saúde ampliou o acesso à mamografia para mulheres de 40 a 49 anos por demanda, ou seja, mediante avaliação de risco e solicitação médica, e segue defendendo o exame a cada dois anos.
A Sociedade Brasileira de Mastologia, o Colégio Brasileiro de Radiologia, a Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica e a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) defendem o rastreamento anual a partir dos 40.
Para os especialistas, ampliar o direito ao exame é um avanço, mas o passo decisivo é transformá-lo em política organizada.
- Ministério da Saúde fala em avanços
- Em nota, o Ministério da Saúde afirmou que não é correto falar em queda de produção de mamografias e que a análise de cobertura deve considerar a parcela da população atendida pela rede privada.
- Segundo a pasta, o SUS realizou 4,4 milhões de mamografias em 2025, o maior número já registrado, entre elas 2,66 milhões de exames de rastreamento na faixa de 50 a 69 anos, também recorde da série histórica. O ministério citou ainda a pesquisa Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel) de 2025, segundo a qual 92% das mulheres de 50 a 59 anos disseram ter feito mamografia.
- A pasta informou que, desde o ano passado, mulheres de 40 a 74 anos podem fazer o exame mesmo sem sinais ou sintomas. Antes, a faixa era de 50 a 69 anos.
- No tratamento, o número de cirurgias relacionadas ao câncer de mama chegou a 63,6 mil [ANO], alta de 13,7% em relação a 2023. Os procedimentos de radioterapia cresceram 17,2% e os de quimioterapia, 14,5% no mesmo período.
- O ministério também informou ter investido R$ 26,16 milhões, por meio do Programa Nacional de Apoio à Atenção Oncológica (Pronon), em equipamentos para biópsias guiadas por imagem, e R$ 6,85 milhões em mamógrafos. Carretas itinerantes atenderam mais de 189 mil mulheres, e 52 municípios zeraram a fila de mamografia, segundo a pasta.
- *Com Informações do Centro de Oncologia do Paraná (COP) e portal g1
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