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Uso excessivo de IA em currículos passa a desafiar recrutadores

Pesquisa da Robert Half aponta que 67% dos líderes de RH veem lentidão nas contratações causada por currículos gerados com apoio de IA



Candidatos a vagas de emprego têm recorrido cada vez mais a ferramentas de inteligência artificial para elaborar currículos, aprimorar perfis no LinkedIn e se preparar para entrevistas. Segundo levantamento da Robert Half, realizado com mais de 2 mil gestores de contratação nos Estados Unidos, essa prática vem tornando os processos seletivos mais lentos e dificultando a identificação de competências reais.

De acordo com o estudo, 67% dos líderes de Recursos Humanos afirmam que candidaturas produzidas com auxílio de inteligência artificial estão desacelerando as contratações. Além disso, 65% dos gestores consultados relatam dificuldade em verificar se as habilidades descritas nos currículos correspondem à experiência efetiva dos candidatos.

Para Diego Godoy, especialista em recrutamento executivo e sócio da MUUDA.work, a facilidade de produzir documentos personalizados por meio de IA mudou a dinâmica da seleção. Segundo ele, é possível inserir a descrição de uma vaga em uma ferramenta e obter, em poucos minutos, um currículo praticamente sob medida para aquela posição.

“Hoje é possível pegar a descrição de uma vaga, colocá-la em uma ferramenta de inteligência artificial e criar em poucos minutos um currículo praticamente sob medida. O documento pode ficar excelente, mas isso não significa necessariamente que aquela pessoa tenha o repertório e a experiência que o currículo transmite. O desafio do recrutador passa a ser separar uma boa apresentação de uma trajetória profissional consistente e condizente com as necessidades das vagas em aberto”, explica Diego Godoy.

Godoy pondera que o uso de inteligência artificial durante a busca por emprego não representa um problema em si. Conforme o especialista, a ferramenta pode ajudar a organizar informações, revisar textos, identificar pontos fortes do currículo, estudar a empresa contratante e simular perguntas de entrevista.

O limite, segundo ele, aparece quando a tecnologia deixa de auxiliar o candidato a comunicar sua experiência e passa a construir uma versão profissional que não corresponde à realidade. Nesses casos, a distância entre discurso e prática tende a se revelar durante a conversa com o recrutador.

“Existe uma diferença grande entre usar IA para melhorar a forma como você apresenta uma experiência que realmente possui e pedir para ela criar respostas que pareçam ideais para aquela vaga. Na entrevista, essa distância pode aparecer. Quando aprofundamos as perguntas e pedimos exemplos concretos, conseguimos perceber o que é repertório do profissional e o que veio de uma preparação artificial”, afirma Godoy.

A mudança no comportamento dos candidatos também tem exigido adaptações por parte das empresas. Ainda conforme a pesquisa da Robert Half, 42% dos líderes de RH afirmam dedicar mais tempo à análise das candidaturas recebidas. Outros 38% relatam ter aumentado o número de entrevistas por candidato como forma de validar informações e competências apresentadas.

“Quanto mais fácil fica produzir um currículo perfeito, menos ele consegue contar sozinho quem é aquele profissional. A tendência é que entrevistas aprofundadas, cases, referências e exemplos concretos de resultados ganhem cada vez mais importância”, avalia o especialista.

Para Godoy, a inteligência artificial não deve desaparecer dos processos seletivos. O desafio, segundo ele, está em aprender a utilizá-la sem eliminar os elementos que diferenciam um candidato de outro durante a seleção.

“A IA pode ajudar a encontrar as melhores palavras, mas a experiência por trás delas precisa ser do candidato. No fim, as empresas não contratam currículos perfeitos. Contratam pessoas capazes de resolver problemas, atender demandas, tomar decisões e entregar resultados”, conclui Godoy.

O especialista também elencou recomendações para que candidatos utilizem a inteligência artificial sem comprometer sua identidade profissional. Entre elas está o uso da ferramenta para revisar, e não inventar, conteúdos, mantendo currículo e perfil no LinkedIn fiéis às experiências reais do profissional.

Outra orientação envolve a personalização dos textos gerados por IA, de modo que o resultado preserve a linguagem e as características próprias de quem escreve. Godoy também recomenda que candidatos evitem decorar respostas prontas, priorizando exemplos concretos durante entrevistas.

Por fim, o especialista destaca a importância de o candidato conhecer profundamente o próprio currículo, sendo capaz de explicar resultados, projetos e experiências apresentados, além de preservar o pensamento crítico ao longo de todo o processo de preparação para vagas de emprego.

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